sábado, 5 de julho de 2014

AMOR DE NOVELA

Recebi alguns pedidos para escrever sobre a relação de dois personagens da novela das nove – Laerte e Helena. Eu não assisto às novelas e por isso pensei em não escrever, todavia comecei a acompanhar um pouco da trama e agora me sinto a vontade para contribuir com algo que seja útil. Falar de sentimentos é sempre muito perigoso. O autor usa o bom e velho apelo do amor que não aconteceu, que não morreu e que virou mágoa. Entra novela, sai novela e o assunto é quase sempre o mesmo porque amor mal resolvido dá ibope.
No caso dos personagens, o que em princípio mostra ares de amor, se apresenta agora com a face da obcessão e da paranoia. Em seu livro, Corações Descontrolados, a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva apresenta resultados de estudos sobre a instabilidade emocional em relações afetivas ilustrando casos reais e fictícios nos quais a maioria dos protagonistas é diagnosticada com um tipo de Transtorno de Personalidade; vale a pena ler, mas deixando um pouco de lado o diagnóstico, acho difícil que o amor não passe pela “casa” da loucura, isso já foi visto até na mitologia grega (no mito de Eros e Psiquê que também vale a pena ler). Até que amor chegue ao maduro estágio de paz, todos nós passamos sim, pelo medo, pelo ciúme, pela obcessão, pela dor ou por algum tipo loucura, porém, uma “loucura” natural vista em todos nós, os chamados neuróticos normais. É muito complicado diagnosticar o personagem Laerte, pois é cheio de licença poética, e um pouco mal construído, sob a ótica da psiquiatria, mas eu acredito que ele tenha incomodado exatamente porque muita gente deve ter se identificado com seu lado “louco”, manifestado pelo ciúme e pela paranoia. Quando sua amada não age como ele espera, ou quando ela “sai de seu controle” ele reage de forma descontrolada e agressiva. A palavra é essa: CONTROLE. Não existe controle algum que possa ser exercido à vida do outro; quando essa necessidade exagerada aparece, não sobra espaço para o amor. As pessoas não estão no mundo para serem ou agirem de acordo com a nossa vontade. Amar é um sentimento que implica em liberdade e nunca caminha junto da insegurança; a insegurança vem da falta de amor próprio. Já escrevi diversas vezes que amar a si é pré-requisito para que se possa amar o outro.
O que Laerte parece procurar é combustível para seu ego, é autoafirmação. O personagem, da forma como se apresenta enquanto indivíduo, ainda é incapaz de amar. No amor emocionalmente sadio não cabem reações agressivas, amar é um aprendizado, e é exatamente quando as reações de raiva desaparecem que ele pode aparecer. Infelizmente, muitas vezes, quando isso acontece, a relação já se deteriorou e se rompeu, afinal, nem todos têm grandeza suficiente para perdoar. Amar é treino, um treino que passa, necessariamente pelo trajeto do autoconhecimento. Para o amor, é preciso tempo, o que acontece a primeira vista, é paixão.
Enquanto Helena guarda os objetos que ficaram após o fim trágico daquela relação, ela mantém vivos os símbolos do rancor. Não é fácil se livrar das marcas de dor que as pessoas nos causam; é muito comum indivíduos guardarem lembranças de relacionamentos desfeitos com as mais variadas desculpas, quando na verdade, estão guardando mágoa, culpa e raiva. Não me parece saudável guardar lembranças ruins, nem na memória, nem na gaveta. Guarde apenas o que for bom, o que não for, deixe ir. Amar é libertar-se. Se Laerte seduziu a filha de Helena apenas para atingi-la e alimentar seu ego tão carente, Helena está tendo uma ótima oportunidade de livrar-se do passado, jogando fora qualquer lembrança que lhe leve de volta para um tempo que já foi. Outra coisa importante é lembrar que muitos sentimentos como esse, ficam vivos, alimentados exatamente por nunca terem acontecido, se tornam idealizados exatamente por não fazerem parte da realidade. É muito fácil pensar que poderia ter sido perfeito, porque existem apenas nos sonhos e os nossos sonhos são perfeitos.
Amor que vale a pena é o amor que não dói, é o amor que é possível, que está presente, que é livre, que acalenta e que cresce. Acredito que todos os seres humanos aprendem a amar amando, é um treino como é um treino viver. Todos nós carregamos histórias não tão bonitas, que terminaram mal e que por isso, devem ser superadas e esquecidas. Acho triste viver preso ao passado, acho triste guardar vestidos, papéis de bombons ou cartões que, aos serem pegos, causem dor. Acho triste confundir amor com obcessão, apesar de isso ser tão comum. Se você chora ou sofre ao ouvir uma canção, ao sentir um perfume ou ao olhar para uma foto antiga, aí vai um conselho, pode até ter sido amor, mas só guarde a lembrança se lhe fizer bem, do contrário, jogue fora. Outra dica – amor não morre.

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